Mudança de Vida - Ao Ângulo de Fe´fiz
22 de abril de 2008

"Já devem ter falado isso, mas tudo começou quando eu nasci.
Nasci num campo lindo, cheio de grama, devia estar na estação da primavera, a única estação que consegui ver…
Meu dono, um velho fazendeiro, teve de se mudar para a cidade grande.
É claro que ele levou todos os meus irmãos, e eu, é claro…
Nós estávamos num caminhão, no meio da estrada, eu não me lembro direito, mas no meio da estrada, eu e meus irmãos estavamos numa caixa, no banco da frente, nossa mãe estava junto de nós, mas não dentro da caixa. As únicas coisas que eu lembro daquela noite foi, um barulho enorme, uma luz e os choros dos meus irmãos. E então, fiquei cega.
Eu não sabia onde estava, não sabia nem o que sentir, medo por nao saber onde estava ou tristeza por saber que minha família não me respondia.
Tudo estava claro, você não está lendo errado não, ninguem disse que o cego não encherga escuro, bom… se alguém disse não sabe de mim, acho que a luz me traumatizou, e só consigo ver isso, uma tela branca.
Sempre que eu escutava alguma coisa, eu ouvia: ‘Que coisa fofa esse filhote!’ ou coisa do gênero.
Pela primeira vez, desde que fiquei cega, fui pega no colo.
-Pronto, coisinha, pronto, está tudo bem…
Era a voz de uma mulher, parecia que tinha uns 50 anos só pela voz…
Senti tanto carinho que até esqueci que era ega, já conseguia até ‘ver’ como ela era, é claro que não parei de ser cega, eu só conseguia ver que era uma senhora de idade que queria demonstrar carinho à algumém.
Ela ficou conversando com uma pessoa, mas eu não conseguia ouvir a voz respondendo, ela devia estar no telefone. Ela falou que tinha uma linda cadelinha e que poderia dar a ele.
Mas quem era ele? Do que ela estava falando? Ela não me queria mais?
Estava muito nervosa…
Ela me colocou num tipo de caixa, mas desta vez não estava aberta a tampa, e nem tinha como saber se estava ou não aberta!!
Enfim, cai no sono dentro da minha mini prisão por uma punição que não entendia.
Finalmente, acordei, a caixa estava sendo aberta, pelo menos dava para ouvir que era isso que estava acontecendo.
Então me veio um cheiro meio que caseiro, nunca tinha sentido aquele cheiro antes, la na fazenda nem reparei no cheiro, mas na casa da minha antiga dona, tinha um cheiro meio desagradável, o cheiro dessa casa em que tinha parado era diferente, um cheiro de casa nova, recém contruida.
Passou-se um tempo, fiquei perseguindo o meu novo dono, parecia uma criança, talvez até fosse. Eu perseguia ele com o cheiro de lavanda que talvez poderia estar na roupa dele. Então não conseguia seguir mais ele, nem me preocupei, fui num lugar que tinha um cheiro bom… Comi num pote uma coisa que parecia uns grãozinhos, devia ser ração, mesmo.
Depois que acordei, escutei uma porta se abrir, devia ser a do meu novo dono, fui até ele, passou um tempo e não senti mais o cheiro dele, ele não estava na residencia, devia ter saido, mas senti um outro cheiro, o de produto de limpeza, fiquei deitada, pois não gostei tanto daquele cheiro, parecia que veio junto com cheiro de amargura…
Senti um empurrãozinho, então ouvi um barulho de porta se fechando, novamente, devia ter sido tirada de casa, mas não me preocupei, talvez o meu novo dono me procuraria de novo. Senti a grama embaixo de mim, que sensação boa! Deviam ter limpado naquele local!
Depois a porta se abriu, esperei o dono vir até mim, mas não ouvi nada, só senti outro empurrãozinho, tinha azulejos a baixo de mim novamente, senti o cheiro de lavanda. Meu dono voltou, fui correndo para ele, já que ele não viria até mim.
Ele me ensinou um truque, mas não entendi direito, mas era assim:
Ele falava ‘Girtrude’, eu sentava, e ele me premiava.

